O pesquisador André Luiz Pereira, do Núcleo de Saúde Digital, do Legal Fronts Institute, é premiado na categoria Liderança em Inovação na Gestão Pública, no Prêmio BrasilGov Summit 2026.
A premiação integra o BrasilGov Summit, um dos principais eventos da América Latina voltados à tecnologia, inovação e gestão pública. Nesse sentido, o encontro promove debates estratégicos sobre soluções tecnológicas aplicadas ao setor público, e estimula o networking entre gestores, tecnólogos e empresas que desenvolvem soluções para governos (B2G).
A estagiária Ana Laura conversou com o pesquisador André Luiz, para conhecer um pouco mais sobre sua pesquisa e trajetória até o prêmio.
Ana – Você poderia explicar qual é o foco da sua pesquisa? O que motivou esse estudo?
Minhas pesquisas visam a salvar vidas no SUS, incorporando inteligência artificial, mas respeitando a soberania tecnológica nacional. Para isso, adoto a visão de tecnodiversidade, do filósofo Yuk Hui. Defendo que não existe um único caminho tecnológico universal. Precisamos romper com a “cultura monotecnológica” de extração de dados e construir nossa própria cosmotécnica para o SUS. Em minha jornada doutoral em 2017, em Munique, na Alemanha, participei do Peter Löscher Chair of Business Ethics, na TUM School of Social Sciences and Technology. Dali surgiram boas ideias sobre uma nova tecnologia, a inteligência artificial. Após a conclusão do doutorado em 2018, entrei em uma segunda graduação, desta vez em engenharia de software. Por 5 anos, de 2020 a 2025, atuei na área de hemoterapia e hemodinâmica do SUS-MG, e me deparei com um problema presente em vários hemocentros: a falta de doadores de sangue, e de sua fidelização, sobretudo os de primeira vez e esporádicos. Depois da pandemia então, com uma aparente adesão a serviços remotos, o problema tem se agravado. Apenas realizar campanhas de conscientização não tem sido suficientes.
Inspirado nos estudos alemães, minha pesquisa conceituou um robô captador de doadores de sangue, em que a IA monitora os estoques de sangue, calcula metas de captação, tria doadores a partir do cadastro e aciona um chatbot agendador. Era a oportunidade de mostrar o potencial da IA para além do que estava sendo usado, da monotecnologia comercial, para seu uso no SUS. Essa pesquisa deu origem ao projeto no SUS-MG, à licitação, e à implementação. De janeiro a abril de 2025, mediante as calibragens semanais, os resultados impressionaram.
O sucesso do projeto é evidenciado por sua escala: em apenas quatro meses, o robô atingiu 242.918 contatos realizados, demonstrando uma capacidade de processamento impossível de ser alcançada por métodos puramente manuais. Seus resultados refletem a robustez da arquitetura em nuvem e a precisão da IA, que monitora os níveis de estoque em tempo real para calcular metas de captação por grupo sanguíneo, priorizando tipos críticos como O- e O+.
Ana – Como foi o caminho que o levou ao BrasilGov Summit 2026? Houve algum momento ou etapa da pesquisa que você considera decisiva para chegar até esse reconhecimento?
Diante dos resultados operacionais, o projeto obteve prestígio global ao ser reconhecido no Relatório de Impacto Econômico do Google no Brasil 2024. Essa validação internacional reforça o potencial da solução em salvar até 500 mil vidas anualmente, tanto direta quanto indiretamente. A escolha da arquitetura Kubeflow reforça o compromisso com a ciência aberta e a portabilidade tecnológica, garantindo que esta inovação seja replicável para toda a hemorrede nacional e internacional. Isso chamou a atenção dos organizadores do BrasilGov Summit, que convidaram o projeto a concorrer ao prêmio de Inovação e IA na gestão pública, ao qual findou pela honraria concedida. Ao integrar a técnica às raízes locais e aos valores humanísticos, rompemos com o monismo tecnológico para cultivar uma razão que reconhece a pluralidade dos saberes e a sacralidade da existência, transformando o ato de cuidar em uma forma de liberdade compartilhada.
Ana – Após a premiação, quais são os próximos passos da sua pesquisa?
Tenho feito uma mobilização para que o Ministério da Saúde discuta uma política nacional de captação de doadores de sangue, apoiada pela IA. O piloto no SUS-MG mostrou o potencial da tecnologia, e abre espaço para a construção coletiva de um novo robô como idealizado, para muito além da versão resumida do MVP em Minas Gerais, e que atenda a todos os hemocentros do Brasil.
Ana: Que conselhos você daria para pesquisadores que estão começando e desejam desenvolver projetos relevantes e com impacto social?
O pesquisador precisa entender qual seu propósito de vida. Para muito além de só ganhar dinheiro e honrarias. No meu caso, cada pessoa que foi captada, doou sangue, e isso se refletir em milhares de vidas salvas, faz todo o esforço valer a pena. São mães, pais, irmãs, irmãos, filhas, filhos, enfim, pessoas amadas que puderam retornar ao encontro dos seus. Puderam manter seus estudos e trabalhos, sustentar suas famílias. Uma ferramenta útil aos pesquisadores é a filosofia IKIGAI, ou uma razão para viver. É preciso se encontrar na pesquisa e trabalho, de tal modo que o que você faz esteja dentro do que se ama, o que o mundo precisa, o que se é pago, e o que se é bom em fazer. A vida não cabe no Lattes e no Linkedin, ela pulsa no peito e nas veias do pesquisador e, assim, podemos ir na contramão dos discursos de ódio e da violência, na real defesa da vida. Para todas e todos.
Acesse mais informações sobre o evento em: https://brasilgovsummit.com.br/



